Grande conquista na escalada da Huayna Potosí – Bolívia

Desafio, emoção e aventura na escalada rumo a Huayna Potosí, o primeiro 6k dos Trilheiros.net

  • Local: Huayna Potosí é uma montanha da Cordilheira dos Andes localizada na Bolívia a 25 km de La Paz.
  • Duração: três dias de trilha.
  • Características: Huayna Potosí é um pico de 6.088m da Cordilheira dos Andes localizado na Bolívia. Essa montanha une a linha da Cordillera Real ao maciço de Mamacora Taquesi e do Condoriri (ou Kondoriri) por uma cadeia de picos menores porém abruptos. A montanha é muito usada por alpinistas para se prepararem para uma investida em montanhas maiores no Himalaia ou mesmo para cursos de escalada no gelo.
  • Itens essenciais: kit completo de trilhas (confira os itens básicos de trekking AQUI). Além do equipamento de escalada em gelo alugado pela agência local contratada.
  • Data: Junho/2017.
Huayna Potosi Bolivia | Trilheiros.net

Sabe aquele projeto que você coloca debaixo do tapete? Ou que não acredita muito? Meus primeiros 6mil metros foram mais ou menos assim…

Não me entendam mal, eu me preparei e muito. Crossfit diariamente, trilhas, escaladas etc. Em 2017 surgiu o convite: vamos escalar a Huayna Potosí? Quem não toparia logo de cara? Eu não… Hesitei…

A época não era boa, a situação profissional inapropriada, não sabia se era o rumo que queria tomar no esporte. Mas espera, foi para isso que me preparei. Inclusive era um sonho antigo.

Aceitei o convite!

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Cheguei em La Paz num sábado à noite. Sozinho numa cidade nova. Mas logo me identifiquei com a cidade e seus moradores. La Paz é simpática, de gente honesta.

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O restante da expedição chegou no dia seguinte. Aos poucos fomos nos conhecendo. Eram todos do Paraná e faziam parte de um grupo de trilhas e escaladas chamado Trekkers Cascavel.

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Nosso plano de aclimatação era: ficar alguns dias em La Paz (3.700m), turistar em Tiwanaku e Lago Titicaca e por último subir o cerro Chalkatay com 5.300m.

Tiwanaku e Lago Titicaca

Aclimatação em Chaktatay – 5.300m

Todos os dias víamos Huayna Potosí no horizonte como um sonho distante e quase impossível. Em alguns dias poderíamos estar lá no cume.

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Apesar de toda a minha descrença, esse dia chegou. Para a nossa sorte foi no dia 21 de junho. Para quem já esteve nos Andes nessa data, sabe o que representa o solstício de inverno. É o ano novo andino. A Bolívia segue a mesma tradição.

Tive a oportunidade de vivenciar o Inti Raime em Cuzco e dessa vez aprender com o povo Ayamara o significado de estar em contato com a natureza e com as montanhas . Confiram um trecho dessa festa no vídeo que está no nosso Canal do Youtube.

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No caminho para a montanha, paramos o carro e fizemos uma oferenda à Pachamama. Foi um momento maravilhoso e percebi que vivemos num paraíso chamado Terra.

Aos chegar ao acampamento base há 4.700m fomos recepcionados por centenas de pessoas comemorando o ano novo Ayamara no pé da montanha. Energia positiva, música, comida e sorrisos. Dentro da gente era um misto de felicidade e ansiedade.

Almoçamos e saímos para a geleira testar nossos equipamentos. Para muitos aquele era o primeiro contato com gelo.

Essa noite saí para tirar algumas fotos acompanhado por dois cães fofos. Um deles inclusive saiu numa foto comigo. Praticamente ninguém do grupo dormiu. Ou pelos efeitos da altitude (meu caso) ou pelo frio.

No dia seguinte, eu já estava do lado de fora do abrigo me aquecendo nos primeiro raios de sol. Não podia ficar mais nem um minuto deitado. Pensa numa noite longa, deitado no chão do abrigo olhando para o teto. Mal sabia que a noite mais longa da minha vida ainda estava por vir. E que seria muito, mas muito mais difícil.

Fiz algumas filmagens com o drone, a luz estava perfeita. E voltei para o abrigo tomar o café da manhã.

Nossos guias decidiram ficar no campo base para o almoço pois perceberam que não estávamos comendo o suficiente. Subir para o campo alto só diminuiria nosso apetite. Decisão difícil pois isso significava menos tempo de descanso antes do ataque para o cume na próxima madrugada.

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Após o almoço, montamos nossa mochila com o equipamento de escalada, saco de dormir e tudo o que precisaríamos para os próximos dois dias na montanha. Como podem imaginar, nossas mochilas estavam pesadas. A minha tinha por volta de 15kg e de alguns passava de 18kg. Não é fácil caminhar acima dos 5mil metros. Subir uma montanha com 15kg nas costas… foi desafiador. Para alguns mais que para outros. Chegamos às 16h no campo alto. Era nítido que todos estavam exaustos.

Naquela tarde eu comi bem, mas a maioria infelizmente não como efeito da altitude. Às 18h tomamos uma sopa e nossos guias disseram que meia noite deveríamos estar prontos para o ataque final.

Deitei tentando não focar no desafio que viria. Ouvi música, contei carneirinho. Nada do sono. Quando percebi já eram 11 da noite. Hora de começar a me preparar. Levantei e senti um forte cansaço e enjoo. Fiquei sabendo que um amigo passou mal e vomitou o jantar… tentei não pensar nisso e focar na hidratação.

O grupo era formado por 11 pessoas. Nesse momento, 2 que estavam esgotados e com muita dor de cabeça decidiram nem sair da cama. Fiquei preocupado e sugeri que retornassem o mais rápido possível ao acampamento base.

Tomei muito chá e me vesti com a maior calma que conseguia. Qualquer esforço era de perder o fôlego com uma pontada na cabeça me lembrando de ir mais devagar ainda.

Meia noite e meia, eu, meu guia e meu parceiro de corda estávamos prontos para iniciar o ataque a Huayna Potosí. A noite estava escura pois não havia lua no céu. O vento estava calmo e a temperatura por volta de -5C.

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Iniciamos a subida tentando manter um ritmo lento e constante. O que foi difícil de encontrar. Em parte por falta de experiência nossa em tal ambiente, em parte por eu e meu parceiro de corda não estarmos muito em sintonia energética.

Cerca de uma hora e meia mesmo com muitas paradas para descanso, meu parceiro resolveu voltar ao acampamento alto. Ele reclamava do cansaço que de fato era visível em seus olhos. Eu tentei motivá-lo de várias maneiras mas não consegui. Percebi que para ele o desafio tinha chegado ao fim. Nos abraçamos e foi difícil deixá-lo ir. Mas eu ainda tinha que focar na subida. Estávamos no início e me sentia muito bem e com energia, mesmo com o estômago embrulhado.

Troquei de corda e guia. Ganhei um novo companheiro de corda. Acho que meu primeiro guia falou para o novo guia que eu estava com muita energia e que ele podia acelerar o passo. Daí quase morremos. No início eu tentei acompanhar o passo do guia. Rapidamente foi como se toda minha energia tivesse esgotado. Estava frio, sentia fome mas não conseguia comer meu chocolate. Mas o pior era o sono, sentia muito sono. Em mais de uma oportunidade que paramos para descansar eu me jogava no gelo e tirava um cochilo rápido. Eu só pensava em como queria o sol nascendo e esquentando para dar um fim aquela noite. Em nenhum momento pensei em desistir, mas o frio e o sono estavam tentado com toda força me derrubar. A sensação era de tortura. Eu só pensava em parar um pouco para dormir mas continuava a caminhar lentamente e ofegante pela escuridão. Meu campo de visão era de poucos centímetros de gelo e neve ao redor dos meus pés. Pequenos passos pelo gelo, muito frio e muito sono. Eu estava vivendo meu próprio desafio quando percebi que meu parceiro de corda também estava com problemas ao me propor voltar. Foi como um soco no estômago que me deixou indignado. Tinhamos ido muito longe para voltar. Eu não aceitava. Conversei com ele e tentei convencê-lo.

Ele estava num misto de desespero e ansiedade. Combinação perigosa na montanha. Queria parar e descansar e quando parávamos, pedia que continuar andando e terminar logo a trilha. Foi difícil entender e processar seu comportamento. Eu mesmo não estava muito no meu eixo. Eu só queria ir o mais lentamente possível para não esgotar minhas energias de uma vez.

Passamos pelo crux da montanha e perguntei ao guia onde estavam os demais. Veio o segundo soco no estômago. Só restaram nós 2 e outra dupla mais adiante. Senti uma profunda tristeza. Por que voltaram? Comecei a pensar em suas histórias, suas motivações, como estavam bem preparados para o desafio e o que poderia ter acontecido.

Retomei a consciência e tentei tirar esses pensamentos da cabeça. Eu ainda estava na montanha e meu parceiro também. Precisava me manter motivado e mantê-lo calmo. Não era possível ele retornar sem mim e eu não poderia continuar sem ele, regras da escalada.

Caminhamos mais pela noite sem fim até chegar no colo do cume. Como nosso ritmo era lento e muitos outros montanhistas haviam passado, o cume estava congestionado. Nosso guia pediu para sentar e esperar por 30 minutos. Eu não pensei duas vezes, me joguei no gelo para tirar um cochilo.

Sonhei que morria congelado e acordei assustado com o guia me chamando para descer. Gritei, protestei, eu não podia descer. Não tão perto.

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Acalmei meu amigo e continuamos. Poucos metros acima porém ele chegou ao seu total limite emocional. Não podia dar mais um passo. Tentei acalma-lo, sem sucesso. Eu estava tão anestesiado que não conseguia processar, argumentar e nem motiva-lo. Meu guia disse que estávamos muito perto do cume e que ele poderia nos esperar em uma caverna de gelo logo abaixo do colo do cume, um lugar protegido do vento.  Concordamos com o guia sem sequer questionar ou pensar no assunto. Eu queria subir e ele precisava voltar.

Meu guia me deixou ali sentado para levá-lo até a caverna. Não sei quanto tempo levou para o guia voltar provavelmente uns 15 minutos que para mim foram uma eternidade. Estava sentado no gelo com muito frio e sono. Mais um amigo havia voltado e eu estava sozinho. Pensei em dormir mas logo o medo de congelar e ficar por ali me despertou. Eu não via nada além da escuridão. Peguei o celular na esperança de me ocupar e quando abri o app de GPS tive uma grande surpresa que me encheu de energia e alegria. Eu estava a 6.040m de altitude. Faltavam apenas 40 metros!!! Eu mal podia acreditar. Meus olhos se encheram de lágrima. Eu estava perto.

Aguardei …. aguardei…. o que é aquilo vermelho? Não parece ser na montanha. São as luzes da cidades de La Paz? É a via láctea que eu via toda vez que deitava no gelo nas paradas?

Não, aquilo era diferente. Uma luz avermelhada, horizontal e perto do horizonte. Espera ai, não podia ser… Eu simplesmente não acreditava. Chorei, sozinho no gelo. Era o sol. O momento pelo qual esperei por aquela noite infinita. Me enchi de energia, calor e esperança. Dentro de alguns instantes avistei meu guia subindo o colo da montanha para continuar.

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Os últimos 40 metros de escalada foram um dos momentos mais felizes da minha vida. Tudo era perfeito. Tinha sol! Um lindo nascer do sol! Nosso caminho era estreito. Estreito como da largura de um pé. Ambos lados eram desfiladeiros de centenas de metros. Era como se eu caminhasse no ar. Nada de um lado, nada do outro. O sol de um lado e o cume à frente!

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Poucos minutos depois estávamos no cume! Nesse momento eu só comprovei o que já sabia há muito tempo. Não se trata de chegar ao topo, mas todo caminho de satisfação e de conquista pessoal. Não é a montanha que conquistamos. Conquistamos a nós mesmos. Aquele caminho na neve. O céu escuro e cheio de estrelas e aquele nascer do sol. Eu me sentia inteiro. Fiquei poucos minutos no cume e fiz as fotos de praxe. A minha conquista estava tão marcada dentro de mim que não precisava de mais nada. Se não fosse o guia, é capaz que eu nem tirasse as fotos. Ainda bem que ele estava lá rs.

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Demos um longo abraço no cume a 6.088m de altitude. Em menos de 2 metros quadrados de gelo. Como a natureza pode ser tão bela? Me enchi de satisfação. Adimirei o sol nascente por alguns instantes e resolvi que era hora de voltar. Estava faminto mas ainda não conseguia comer aqueles chocolates. Voltamos. Aquele que subiu não voltou.

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Confira o vídeo da escalada do pico Huayna Potosí no nosso Canal do Youtube:

Jr | Trilheiros.net

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